• Mariana do Vale

Quatro dias

A cada 4 dias experimento sensações distintas em que passo de um tempo elástico em que posso me dedicar à minha produção – ou simplesmente dormir – para uma dedicação exclusiva à família, casa e filha.


A cada 4 dias, quando chegam os dias em que posso produzir, primeiro paro e respiro. Por vezes, muitas vezes, no início do isolamento tive dificuldade de lidar com o tempo em excesso. Quando resolvia o que fazer com ele, já me sobravam poucas horas. Agora, durante os 4 dias que antecedem os meus, estipulo prazos, atividades, cronogramas e tudo o que já abominava de minha rotina anterior ao isolamento.

Não tenho nenhum conhecimento sobre o que fazer em caso de ter tempo e calma de sobra. Me ocupo, e rapidamente, exijo uma produtividade frenética que transforma mais uma vez toda a vida em uma corrida sem linha de chegada.


Mas o que eu queria era mesmo ter tempo.


Os 4 dias em que me dedico à casa, à família e à filha estou, quase sempre, com dificuldades de lidar com meu humor. Uma espécie de TPM sazonal que encontra lugar em 4 dias. Gostaria de ser só sorrisos enquanto cozinho, ensino e limpo. Mas não sou. Sinto-me frustrada, interrompida, reduzida. E não sem motivo. O mundo não se adequa sempre ao meu calendário e não respeita meu ciclo de 4 dias. Exige-me produção em dias errados, cansa-me nos dias errados.


Mas não basta produzir. Tenho produzido. Mais do que o fazia quando não estava isolada. Os editais, entretanto, parecem seguir invisibilizando as questões que me provocam. O interesse está em antever o cenário pós-pandemia e entreter os confinados.


Gostaria de falar sobre meu corpo. Mas ele é setentista demais, é corpo demais com esses seios e vagina à mostra. Recentemente, ainda que estivesse questionando a construção da intimidade ao projetar uma estranha que me lavava por dentro e por fora durante um banho, a discussão se demorou em me alertar sobre pornografia e deep web. Seios e vagina são questões eróticas e provavelmente só falem de desejo. O que busco são caminhos para falar de violência, intimidade, feminismo e maternidade. E se um corpo violado como o meu – e outros tantos – já não podia falar sobre isso há 50 anos, hoje continua amordaçado.


Se o sistema pauta o que devemos falar, e, principalmente, como [não] devemos falar, parece ser urgente discutir e produzir uma arte que não sirva, que não importe, que não mude o mundo. Para que se escancare e negue esse caráter anestésico de uma arte que distrai para que não se possa refletir e encontrar na coletividade estratégias para implodir o sistema.


Usarei meu corpo para fazer uma arte inútil.