• Mariana do Vale

O espaço em que vivo é um corpo

Dentro de mim, outra.



Somos duas disputando um espaço que me parece cada vez menor. Concordo com Simone, nem sempre servir à espécie coincide com uma satisfação individual.


Não que não a queira dentro de mim, mas parece que engendrar, apenas explicita que de fato nunca tive controle algum sobre o corpo que carrego. Hoje, plural. Aprendi cedo, ainda no final da infância, sobre atravessamentos. Não há muito de novo, na verdade.

Os meus seios, que já foram alvo de comentários na puberdade quando insistiam em crescer, hoje possuem outra cor. Negros, como minha origem. Talvez numa tentativa de expurgar o corpo estranho que se aninha, vomito reiteradas vezes. Emagreço com uma facilidade que jamais experimentei. Mais uma vez, à revelia.


Esse espaço que ocupo me domina.

Parece e é assustador o que à mulher está destinado pelo fisiológico. Órgãos e colo que se dilatam, ossos que se alargam para que sem nenhuma facilidade se faça a vida, deixando para trás um corpo lacerado.


Mas quem brota de mim carrega o mesmo corpo que eu.

Eu a coloquei aqui. Minúscula. Imperceptível. E a desejei. Também porque ansiava me experimentar em potência. Talvez por isso, o extremo. Da esterilidade aos quinze óvulos. Picos hormonais que me levaram próximo à insanidade.


De fora, a vejo me esticar e experimentar seu pequeno corpo, ao passo que mostra os limites ultrapassados do meu.


Até que ela arrebente, o espaço que me cabe no meu corpo se reduz a cada dia, ao passo que já não caibo mais em minhas calcinhas.


Ela também me tirou a lua, aquela que eu sangrava todos os meses. E as dores mensais que me acamavam. Talvez para condensá-las mais à frente. Também se foi a memória e o caminhar centrado.


Ainda não a sinto revirar-me. Mas minha primeira cicatriz me parece mais larga e profunda. Como se buscasse pelo cordão que há muito já não está. Quando eu ainda não podia ser casa.


Hoje tenho uma hóspede e o espaço-corpo que habito, é apenas estranhamento.