• Mariana do Vale

Mito da sereia

Conta-se que Maria foi embora de casa levando consigo pratos antigos da família. Fugida de uma família abusiva, Maria percebeu que a cada conquista pessoal, um dos pratos, coincidentemente, se rompia acidentalmente. Quando experimentou o primeiro orgasmo, quando ouviu sua voz pela primeira vez, quando se reencontrou com o mar... Assim se foram 3 pratos. Restavam 3. De tempos em tempos, Maria padecia de um mal da alma que a consumia em angústia e melancolia e a jogava inerte em uma cama onde experimentava indícios de loucura. Um dia, reunindo as poucas forças que tinha, levantou-se e quebrou os últimos pratos. Dias depois, em silêncio, assumiu forma de sereia: metade mulher, metade filha.




Moagem manual







Tentar reverter essa entropia que é impossível






Me pergunto se moer pratos me permitiria reescrever a história. Como quem apaga. Como quem esquece. Como quem cria um mito ancestral. Como quem pare.


Talvez aí esteja o meu impossível.