• Rafaela Jemmene

Início de conversa



Estes dias li o livro de Jimmie Durham, chamado Entre o mueble y el inmueble (Entre una roca y um lugar sólido). E nesta leitura percebi – na verdade já havia pensado nisso mas não exatamente com nitidez – que pode-se escrever de uma maneira fragmentada, intercalando histórias, inventando ficções, citando eventos históricos e nomes, mesclando pensamentos seus e de outros. Existe um fio condutor que rege tudo, mas nem sempre ele é tão evidente, o que falta, a lacuna e o entre, preenchem uma parte do conteúdo, ou seja o que é subentendido ou o que é deixado nas entrelinhas, também faz parte da história.


E eu como já devo ter dito em muitas ocasiões, às vezes me vejo obcecada por algumas ideias, as vou tecendo, juntando e sobrepondo fragmentos dispares e em certos momentos deslocados. E assim sigo montando textos e criando histórias polifônicas. Eu quero um dia desses juntar em um trabalho a mesa do Ponge, a cadeira do Durham e o pensamento sobre o homo sapiens ser a única espécie animal capaz de construir ficções e fazer fofoca, isso não fui eu quem disse foi Yuval Noah Harari, em seu livro Sapiens, eu sei que parece ser uma missão muito, mas muito pretensiosa, e de fato é, mas talvez seja essa a graça do trabalho, a tentativa de juntar tudo isso em uma grande montagem textual que tenha um fio condutor.


[…] Essa capacidade de falar sobre ficções é a característica mais singular da linguagem humana. (Yuval Noah Harari)

Mas, devo dizer que escrevi tudo isso para confessar duas coisas: a primeira é que o argumento apresentado por Harari em seu livro sobre a fofoca e as ficções não me sai da cabeça e a segunda é que na verdade comecei este breve relato com a intenção de falar sobre a nossa capacidade de criar histórias, de criar sistemas ficcionais, e como isso nos levou a produzir tanta informação, como tantas obras foram escritas e multiplicadas. Também devo dizer que não sou uma especialista no assunto, na verdade sou alguém que costura pensamentos e papéis, e o faço por vontade de diálogo. E nesse fluxo de pensamento me lembrei de um filme de Alain Resnais, Toda a memória do mundo, no qual ele mostra as entranhas da Biblioteca Nacional da França, e mesmo sendo um filme antigo, ainda me causa espanto pelo labirinto que a câmera de Resnais percorre, ao mostrar um incontável acúmulo de informação no interior da biblioteca, quase nos leva a Biblioteca de Babel de Borges, mas isso também seria outra história.


Título original: Toute la mémoire du monde Ano de lançamento: 1956 Direção: Alain Resnais Gênero: documentário.


[…] grandes sistemas de cooperação, que envolvem não 22 mas milhares ou até mesmo milhões de seres humanos, exigem que se saiba manejar e conservar imensos volumes de informações, muito maiores do que qualquer cérebro humano pode guardar e processar individualmente. (Yuval Noah Harari)

Paro por aqui. Ainda tenho que costurar e percorrer muitos lugares e textos…