• marcellamaria2009

experiência abraço

Lenços de papel são fabricados para serem delicados, prontos para o contato e para absorver nossos fluidos (lágrimas, sangue, suor..). Absorvem, modificam a cor e a estrutura, gerando manchas, rasgos, dobras, alterando a textura, até que são descartados.


detalhe das manchas na absorção da tinta


É no entendimento de absorção como acolhimento e remendo como cuidado e não descarte, que foi pensada a experiência abraço, título da proposição que criei para a exposição coletiva “ainda fazemos as coisas em grupo”, com curadoria e orientação de Ana Miguel, Brígida Baltar e Clarissa Diniz, entre os dias 7 de dezembro de 2019 e 7 de janeiro de 2020, no Centro Municipal de Artes Helio Oiticica,

no Rio de Janeiro.




Os lenços de papel foram entintados com tinta guache e colados montando duas vestimentas que foram dispostas em cabides de madeira e expostas num suporte de madeira. Os visitantes da exposição podiam vestir as roupas e passar pela experiência sensorial (também de troca), por um lado a possibilidade de perceberem a fragilidade e resistência da roupa e ao mesmo tempo sentirem o “quentinho” acolhedor dos lenços de papel (esse quentinho que chamo de abraço), em troca, a possibilidade da roupa “ganhar vida” com os diferentes corpos e seus movimentos.






As vestimentas funcionavam como uma pele de papel e estavam dispostas a essa experiência de contato. Ao final do dia, como pele e como as propriedades dos lencinhos, apresentavam rasgos, marcas e manchas, registros das passagens de outras pessoas por elas. Dentro da proposição, cabe a mim (Marcella) recolher os frangalhos de lenços e lidar com tudo que sobra (sem desprezar nenhum frangalho de papel) e remontar as roupas para o próximo dia. É importante ressaltar que em um dia as roupas resistiam por várias experimentações sem precisar de reparos, passando de uma pessoa para outra.




nas fotos: Edju, André Sheik e Cleo Fonseca


São duas roupas e para cada uma um procedimento de cuidado foi adotado: uma seria remendada com cola e poderia receber enxertos de papel ou outros elementos que ajudassem a aumentar a resistência e recomposição (fios de cabelo, por exemplo), a expectativa é que essa vestimenta crie cascas, endureça como uma carapaça; a outra seria apenas emendada com cola, a expectativa era que essa encolhesse com a quantidade de cicatrizes, ao ponto de não caber mais.

A ideia é que a experiência abraço possa acontecer em outras ocasiões até que as vestimentas ou a autora se esgotem, num processo de registro corpóreo como a própria vida. Rasgar e a resiliência de sempre remendar e, assim, escrever a memória na pele. Se transformar com os fluxos, com o inusitado, com a ação e percepção de outros “corpos”.


No passar dos dias, a observação dessa pele de papel na relação com as pessoas e com o contexto se ampliou para muitos outros fluxos (localização no espaço físico do centro cultural, por acontecer no verão, por estar próximo a janela, pela duração da exposição...) . Foi possível observar a leveza da pele através da ação do vento e da fluidez dos movimentos feitos pelos amigos que experimentavam; a transparência através da luz que vinha da janela; a diferença dos tons das manchas com o passar do dia. Ao mesmo tempo, perceber um certo alívio no rosto das pessoas ao notarem que, mesmo com o esfacelamento, a roupa resistia à ação de seus corpos.



A experiência abraço pretende entender o corpo como autorretrato das vivências, a matéria-prima das relações quotidianas e para o processo de pensamento.

Entender também que lidar com esse corpo, que não fica indiferente, mas que atua numa parceria quase lúdica entre cuidado e esfacelamento em relação a outros corpos (sejam eles pessoas, tempo, espaço, fluxos, poeira, luz), como fragilidade e resistência e com o desgaste, o rasgo, a falha e a ação de remendar podem ser próprios do processo de arte, o que vim a chamar de “incorporar a derrota”. Experiência que absorve, mancha, marca, rasga, muda de forma e reconhece as marcas como capacidade e potência de ser afetado, relevância da participação/presença desses outros corpos no meu projeto de arte.



* Eu e mais 14 pessoas vestiram as roupas.