• Sofia Bauchwitz

uma fenomenologia do fracasso...

... tenho pensando a baleia. Esse animal de sangue quente, que não para de nadar e que habita zonas improváveis e abissais. Penso com imagens dos outros, com palavras dos outros que roubei para mim, mas também com alguma breve experiência que criei para mim de fragmentos como se fossem um tudo.


Acho que a pesquisa começou com o sal e voltou pro mar e achou a baleia no meio dos livros, a carne da baleia, a garganta da baleia e a morte da baleia pelos arpões e cordas, e daí foi pra dor de garganta e de volta pro sal que limpa. Minha garganta só sara com sal e óleo de copaíba.


O que pode me contar esse animal sobre habitar neste planeta? sobre nossa vontade de querer habitar outros planetas? Ele burla os nossos melhores robôs e ainda não foi extinto. Para mim a baleia é um conceito para pensar o não-humano, uma metáfora viva que quebra a técnica humana. E a baleia para mim é branca. Pois esta cor, que é a cor das salinas que ofuscam, é também a cor da gordura e da carcaça que chega na areia.


Nas mitologias, o homem é o último a ser criado, de restos do que veio antes. A baleia veio antes do humano. Como pensar esse vestígio que somos? ...como a lembrança de minha mãe sobre minha avó sendo aberta na mesa cirúrgica. é branca, a gordura.


A fenomenologia trabalha com a descrição dos acontecimentos e descrições é basicamente o que consigo, ainda, criar.


Inúmeros textos, esboços, fotos e vídeos foram feitos e desfeitos ao longo dos anos, e eu acordava e a baleia ainda estava lá.


O fracasso ainda estava lá.


Que forma tem uma baleia?

Acabei incorporando o caráter

migratório do animal como método.

E o "quase" que consigo mostrar

como matéria.