Eliza, em busca da mulher de onde vim



#apropriação #branco #reprodução #diário #caminhar

Como foi estar por mais de dez anos grávida? Passar por catorze partos vaginais? E amamentar esses bebês? Como embalou para dormir? Como foi pastorar tanta criança?


São perguntas para as quais nunca terei respostas. Porque quem viveu isso não está mais aqui para contar sua versão da história. Eliza, minha avó paterna, deixou a terra anos antes de eu nascer, onze, mais precisamente. No primeiro dia do ano. Era 1973. Seus últimos suspiros foram nos braços do meu pai, Salomão.


Nasci em dezembro, assim como ela. Talvez daí a homenagem. Ao invés do Z no nome, ganhei um S, virei Elisa. Vovó deve ter morrido sem nunca ter escutado o ditado africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar/criar uma criança”. Mas talvez tenha percebido que é quase humanamente impossível uma mulher dar conta de tanto filho sozinha. Dos que nasceram, treze se criaram.


Segundo contam, vovó fazia doces e dificilmente perdia a paciência. Ela usava um termo que amo e, basicamente, só escutei na minha família, porque papai herdou a palavra. Mingote. Já ouviu? Fui no dicionário Michaelis, porque dessa vez nem o dicionário etmológico me deu pistas, e tinha assim:


min.go.te sm gír Cigarro de maconha.


Ri sozinha enquanto lia. Com certeza seu Michaelis não alcançou essa gíria vinda lá do Morcego*. Mingote para a família Raulino da Silva é uma criança que chora por qualquer coisa miúda, uma desnecessidade ou que se ressente das brincadeiras. Eu fui uma criança mingote raiz.


Vi poucas fotos de vovó. Penso nela de perfil, com um vestido florido azul. Apesar da foto que me faz ter essa lembrança ser preto e branca. Construo vovó pra mim.


Como seria sua voz?

Que gosto teriam suas comidas?

Como seria sua gargalhada?

Como ela pariu tanto menino e seguiu a vida?

Amamentou tudinho?


Em exatamente uma semana estarei em Martins. Mergulhar num açude de memórias. Caminhar sobre uma terra afetiva. Buscando, quem sabe, vestígios de vovó. Levarei junto meu filho, Miguel. Ele tem mais ou menos a idade que eu tinha quando fui levada por um jumento desembestado. Não podia apertar o bucho do bicho com os calcanhares. E foi exatamente o que fiz quando subi no jumento. Ele correu, me agarrei na sela e um primo saiu em disparada atrás da dupla mato a dentro.



Engraçado não lembrar de um céu azul. Na memória, o céu de Martins sempre foi branco. E tinha água. Uma água brotando da areia. Num quadrado de madeira, demarcando o lugar correto da água limpa. Uma cacimba. No lombo, o jumento carregava dois barris, semi cobertos com pedaços do que parecia ter sido um dia um pneu. E com pequenas cuias a gente transformava em brincadeira o que era um ofício quase que diário dos meus primos da serra.

O lençol branco escorria pela varanda e nas noites plenamente escuras era atravessado pelas luzes coloridas do projetor de diapositivos Kodak. O gerador barulhento contrastava com a mudez das fotografias.


Reviro álbuns, slides, memórias, em busca de uma Martins de 30 anos atrás. Talvez de 40, 50, 60, 70 ou 80. Quando minha avó morava lá, perto da família. Imagens vistas, inventadas, me aproprio das minhas memórias e das memórias alheias. Uma imagem nunca é uma realidade simples, Rancière alerta (em O destino das imagens). Fiquei presa nessa frase.



Uma infância de imagens fixas e móveis. Construídas por nós e especialmente por papai. O homem que, assim como eu, tem urgência em viver; e talvez por isso tantos registros nos unem, permeados por uma sensação ingênua de tentar reter o mundo inteiro em nossa cabeça (Sontag em Sobre Fotografia).


Um tempo esmaecido pelo branco da lembrança. Um presente de costuras desfeitas. Recorro ao meu pai para saber quem são os homens e mulheres das fotos. Anoto. Transcrevo áudios. E a casa azul? E o açude em que estou agarrada na bola laranja. E como está a casa das férias? As janelas já não devem ser tão enormes assim... o espaço hoje abandonado deve seguir sem energia ou água encanada. Será que ainda guarda a porta ferida pelo bando de Lampião?



No Morcego, lembro da sensação esquisita de comer uma ave que minutos antes corria solta pela casa. Lembro do sabor oleoso do macarrão. Das pedras gigantes no jardim. Da brisa da noite e do céu estrelado. Da rede clara cheia de bichinhos noturnos. Tento dar uma mordida nesse passado imagético que me atravessa para quem sabe reencontrar o encantamento nessas imagens. E a partir delas elaborar novas tramas e sabores.

[É mais fácil achar algo quando a gente sabe o que está procurando].

*A serra do Morcego fica numa das encostas da serra de Martins. Anos depois descobri que o nome correto do lugar onde passávamos as férias era Sossego e não Morcego. Martins tem mar no nome. E 700 metros para cima a separam desse mar e a deixam mais perto do céu.



Elisa Elsie