• Rafaela Jemmene

E o branco é sempre o quartinho




Em 2010 eu resolvi ficar uma ano trabalhando em um Quartinho vazio. Vazio no sentido de mobiliário, queria lidar com a sensação de vazio, de ter somente o espaço oco a me acolher. E assim fiz por um ano. Neste período elaborei diversos trabalhos sobre este Quartinho, este espaço diminuto cheio de potência. Este inclusive foi o título do meu mestrado.

Quando lá cheguei, havia uma prateleira branca, já envelhecida e suja, que estava presa à parede por mãos francesas, também pintadas de um branco sujo. Não havia porta, somente o vão de passagem. O chão foi um dos pontos que mais me chamaram atenção - era vermelho, conhecido como vermelhão.

A primeira ação que eu fiz foi retirar uma prateleira da parede, era o único utensílio que ficou dos antigos moradores. Mas o quartinho que eu percebia vazio, era prenhe de memórias, de índices de passagens, nas paredes, no chão. Quando tirei a prateleira sua marca de existência ficou marcada. No vidro da janela tinham adesivos, em um deles estava escrito: Bebê a Bordo. As fotos que eu chamei de registros de processo, se perderam quando meu antigo computador morreu.

A casa da Rua Simpatia, era grande, foi edificada em um terreno levemente íngreme, é composta por frações, que reunidas formam uma casa. A parte que parece ter sido construída primeiro é formada por dois cômodos, que não consegui definir suas funções na época de sua construção. A casa foi construída aos pedaços, parece uma montagem arquitetônica, um corpo que foi se transformando de acordo com as necessidades de seus habitantes. Começou nos fundos e desceu, tomou conta do terreno transformando-a em uma espécie de labirinto-moradia, com um muro coberto de heras. E a casa foi crescendo, de caoticamente, sem projeto.


Rafaela Jemmene, e o branco é sempre o Quartinho, desenho e impressão digital sobre papel algodão, 2010 e 2011. São espaços construídos virtualmente, e visualmente  não apresentam  fácil acesso, pois não apresentam portas ou janelas livres, estão obstruídas por grades, vidros, treliças, enfim, materiais que possibilitam a visibilidade de fora para dentro e de dentro para fora, mas ao mesmo tempo não permitem acessar o espaço e nem sair dele.