• Lara Ovídio

dias de espera

trechos de um diário pandêmico e fotografias de reclusão.



Polaróide n. 2

Saí de casa pela primeira vez desde o começo da quarentena e me deparei com um globo terrestre de papel todo escangalhado, pendurado em uma das árvores da pracinha perto da Rua da Lapa. Fiquei pensando se seria um feitiço ou um vaticínio da própria árvore.





04 de agosto de 2020

Fuga n. 1

Saio na rua e vejo os mesmos lugares de antes cheios de gente outra vez. Eu olhava para a rua e via sempre um sentido de festa. Na padaria, as pessoas exalando cachaça e sexo, no bar, todos cheios de vida, no aterro, saúde e cor. De repente, tudo se incrustou com um certo sentido de decadência, como uma cidade abandonada que, no entanto, segue povoada por carcaças que mesmo sem vida são capazes de se mover.







Fuga n. 3*

09 de agosto de 2020


Pensamentos difusos tomam conta de mim. Lembro de W.G. Sebald, de Patti Smith, de Valéria Luiselli. Lembro do filme que eu queria fazer com a ajuda de Tarkovsky e que não faço. Penso nas polaróides que Valéria usou, que Patti usou, que Sebald usou. Penso nas minhas próprias polaróides, feitas nas minhas férias dentro de casa e daquela sensação vaga de não saber exatamente o que ainda era fotografável. Fiz algumas fotos minhas, da casa e de pequenas escuturinhas instantâneas de post it amassados. Uma mistura de Erwin Wurm e Marcel Duchamp. Não são nada demais, mas me fazem companhia. Gosto da fragilidade e da maneira como sobrevivem à corrente de vento que atravessa a casa quando vai chover. As polaróides das férias desse ano me lembram as do ano passado. Você às vezes agarrava a câmera e apontava pra mim, às vezes eu agarrava a câmera e apontava pra você. Não passamos as férias juntos, nos encontramos depois que eu cruzei o deserto. Não falamos de saudade, nossas fotos juntos são sempre separadas. Eu deitada no chão, você com um pé de cada lado da minha cintura me pediu pra olhar pra câmera. Você deitado na cama, você mijando. Nessa última foto não dá pra ver quase nada, mas eu e vc sabemos que é você, que nos encontramos depois de tantos e tantos dias e mesmo que não conseguíssemos dizer quase nada, estávamos felizes. Sempre que olho essas fotos, penso em escrever um romance que se passe na estrada. Minha cama seria facilmente confundida com um motel barato em que pararíamos para pernoitar. Mas a gente nunca parou num motel porque nunca saímos do perímetro do Rio de Janeiro. Essas imagens poderiam ser qualquer coisa em uma ficção, mas seriam para mim sempre aquilo que são. Dois jovens que mais cedo ou mais tarde podem envelhecer e ter menos esperança. Tudo já foi escrito, e, no entanto, continuo escrevendo.




com quantos diários se faz uma quarentena? (2020)

leitura coletiva de diários realizada no instagram @vulvarevolucao.